o ano novo já passou tem um tempinho, mas ainda estamos na fase inicial das pessoas tentando seguir suas resoluções de fim de ano, seja ir na academia, ler mais livros ou comer saudável.
é uma tradição amplamente difundida e comum entre dezembro e janeiro, que confesso já tentei inúmeras vezes, mas que nunca passou de fevereiro. até que um dia eu entendi que não faz sentido algum pra mim e só parei mesmo.
não é desmerecer quem faz, ou tenta, é apenas que pra mim a lógica de recomeçar e tentar coisas novas, ou retomar as abandonadas, sempre que um novo ano começa não faz muito sentido.
não consigo ver o tempo como um recomeço ao mudar do ano, não sou do time 365 (ou 366 em anos bissextos) novas oportunidades. vejo a vida como um contínuo de tempo e de ações onde o trocar dos números indo-arábicos do calendário pouco influência nas minhas motivações e resoluções para a vida.
entendo perfeitamente quem tenta e até consegue fazer as tais promessas, a época final e inicial do ano é tomada por um sentimento festivo e de conclusão de ciclos, de introspecção e reflexão, seja espiritual, religiosa ou apenas das inúmeras festas das firmas. é natural ser tomado por um sentimento de renovação e de tentar tirar da gaveta os hábitos que por anos queremos fazer virar rotina.
acontece que vejo tais iniciativas como infrutíferas e apenas vindas de um sentimento passageiro e pouco duradouro no longo prazo, a vida acaba acontecendo e as falhas nas promessas vão surgindo e acumulando a um ponto que você apenas desiste de tentar, muitas vezes até com repulsa daquilo, se fechando completamente para qualquer nova tentativa. “ah não vou conseguir mesmo, vou deixar pra lá de vez”. e assim a frustração toma conta e você não consegue suas três idas na academia durante a semana ou o livro do mês.
gerando então um sentimento de fracasso e derrota que atrapalha não só aquela promessa específica mas outros aspectos cotidianos, pode influenciar seu humor e como se vê. algo importante e que te ajudaria tanto torna-se um desmotivador geral e mais um peso a ser carregado, vira sentimento de incapacidade e conformismo. o que em tempos de redes sociais é potencializado ao ver inúmeros outros compartilhando conquistas e realizações. outros que estão no mesmo barco de quedas e frustrações que todos, mas que a dinâmica contemporânea nos faz crer que estão “vencendo” e nós não.
obviamente fazer tentativas de mudanças e criar bons novos hábitos é algo interessante e a ser buscado, mas ao tentar fazer isso apenas, ou principalmente, no ano novo acaba criando uma expectativa grande demais, passos maiores do que as pernas podem ser dados e o tombo será grande, machucando mais do que normalmente e incapacitando as desejadas mudanças.
tudo bem usar o período festivo e carregado de simbolismos como fonte de reflexão e momento de criar novos caminhos, mas talvez seja mais saudável não depositar tanto peso em um único momento e sim entender que as coisas não serão reiniciadas, que você não tem apenas os 365 ou 366 dias pela frente mas toda sua vida e que se no meio do caminho você falhar ou entender que não é aquilo o que quer fazer, basta mudar e tentar novamente.
o ano pode mudar, mas não mudamos magicamente com ele do nada, não adianta colocar sobre si, de um momento para o outro, um caminhão de coisas para realizar e todos os livros do Stephen King pra ler. os ciclos de repensar as rotas a seguir não só podem como devem ser contantes, fazer promessas em agosto tem o mesmo efeito que em dezembro, o que mais vale é se respeitar e ter consciência de que as mudanças vão levar tempo e que tá tudo bem se cumprir as metas leve anos e não os meses inicialmente planejados.