um ano de merda

dois mil e vinte. um ano de merda.

dois mil e vinte. um ano de merda.

tudo começou no longínquo janeiro de dois mil e vinte. ano novo, promessa de cumprir as promessas. o ano que a dieta vai pra frente, que vamos ver mais os amigos, fazer tudo aquilo que a gente disse que queria fazer e mais. um ano pra viajar, colocar a leitura em dia, aprender algo novo e tudo mais que pensamos sempre ao acabar e iniciar um novo ciclo solar do nosso pequeno planeta azul.

parecia que ia dar certo, esse ano vai.

até tinha uma história estranha aparecendo, mas era láaaa na china. tão longe que nem fazia sentido se preocupar, quantas dessas já não rolaram antes? do porco, do frango, gripe todo ano e sempre estamos aí.

vida que segue, carnaval logo chegando pra gente aproveitar, fazer uma zuada, se encher de gliter pra ficar reclamando o resto do ano que aquele troço não sai, que toda vez que vai varrer a casa encontra um pouco em algum canto.

os dias vão passando, carnaval chega de verdade, nada daquelas coisas coisas fora de época, agora é pra valer, blocos pra cá e pra lá, canseira, calor e suor. muvuca nossa de todo ano, com cerveja cara e quente e um monte de gente fedida, mas feliz e se divertindo. não é perfeito e tem hora que enche as paciências, mas é legal.

a festa finda e páscoa começa a dar as caras, a próxima comemoração em vista, essa mais com a família, pra encher o bucho de chocolate e sepultar as promessas nutricionais que davam sinais de fraqueza no carnaval.

mas aquele história que estava no outro lado do mundo não está mais só lá, as coisas começaram a evoluir e tomar o mundo, o que antes era uma ideia distante e localizada começa a ganhar corpo e forma de um jeito que ninguém tinha visto antes.

a coisa é séria. já em março vemos sinais de que não tá tudo bem mesmo. começam a fechar tudo, algumas pessoas conseguem trabalhar de casa, outras perdem o emprego e muitas continuam indo e correndo o risco para garantir o sustento.

nesse desespero inicial falta organização, falta direcionamento e empatia, não temos planos, tivemos tempo para isso mas ignoramos a realidade do mundo, não aprendemos com os outros e agora vamos pagar o mesmo preço.

na verdade, um preço mais alto ainda.

enquanto vemos em vários lugares medidas para lutar contra essa onda nefasta, aqui é cada um por si, é presidente batendo cabeça com governador, cada um com sua estratégia ou falta dela. é troca de ministro, fake news e desinformação. é povo à deriva, sofrendo mais do que o normal.

cada dia é um aumento dessa tal curva. vidas ceifadas diante de nossos olhos. todo mundo vai conhecendo gente que pegou esse negócio novo, alguns vendo os seus amados e queridos morrendo, mas à distância, longe para não ter risco de contaminação.

é mãe vendo filho entrar em hospital em maca pra sair em caixão vedado, é filho dando adeus pra pai pelo celular, é canseira, é calor, suor e lágrimas. no começo choca e indigna. mas aos poucos vamos normalizando, começando a achar que tá tudo bem, que podemos só ir aqui ou ali. que tá tudo bem chamar uns amigos, já tem meses, tô com saudade, né? não faz mal ser só a gente, passa álcool e tá tudo bem.

mas a doença não cansa. não para. a curva não diminui. logo somos um dos piores países contra essa batalha desgraçada que podia ter sido tão mais suave. viramos exemplo de como não fazer.

o ano que começou com promessa de melhoras, de que agora vai dar bom, vira um caos, o ano que não existiu.

bebês, que acabaram de entrar nessa confusão danada de vida, sem poderem receber a devida atenção de familiares e amigos.

entes amados que só voltamos a ver quando não mais podem conversar conosco, contar como foi o dia, o que fizeram e lembrar de histórias antigas que já ouvimos mil vezes antes mas ainda gostamos de ouvir.

esse ano nos tirou mais do que os outros. vivemos em um momento que estará em livros de história, tal qual as pragas do passado que pareciam tão distantes.

e agora chegamos a mais um fim do ciclo na massa de terra da qual fazemos parte, as promessas começam a surgir em nossa mente novamente, que dessa vez pelo menos a mais importante delas seja cumprida, que o próximo ano seja melhor.

dietas e exercícios são secundários, que possamos nos ver e demonstrar nosso amor por aqueles que ficamos longe, que a máscara que usemos não seja mais cirúrgica, mas uma bem espalhafatosa e divertida, que possamos tomar um goró em uma praça qualquer sem manter distanciamento social.

de ano de merda, já chega dois mil e vinte.