lulou, um raso resumo

eu escrevi um texto logo depois do primeiro turno da eleição de 2018, quando ainda existia uma chance (mesmo que fantasiosa) de que o…

eu escrevi um texto logo depois do primeiro turno da eleição de 2018, quando ainda existia uma chance (mesmo que fantasiosa) de que o haddad poderia virar o jogo.

nesse texto eu já levanto a bola de que o que viria seria muito difícil, eu só não tinha como saber o quão difícil seria, é claro que eu sabia que o governo bolsonaro seria péssimo, mas parece que eu sentia ainda alguma esperança de que teria uma ou outra coisa boa. olha, eu estava muito errado e ingênuo.

os últimos quatro anos foram, provavelmente, os piores desde a redemocratização, voltamos ao mapa da fome, precarização do trabalho, retrocesso educacional e científico, aumento do desmatamento, custo de vida extremamente elevado, avanço de frentes facistas e tantos outros problemas que não caberiam em poucos parágrafos.

sim, eu sei que a pandemia veio e impactou de maneira impressionante nossa vida, de um jeito que pouquissímas pessoas no mundo passaram antes, mas não fomos o único país a ser afetado, porém fomos um dos que pior lidou com tudo.

um país onde o governo federal foi peça chave da pior maneira possível, lidando de forma amadora e completamente indiferente às inúmeras pessoas que sucumbiam ao covid. incentivava medicação que de nada servia, foi contra vacinas, disseminou mentiras, tratou como gripezinha e tentou de todas as maneiras prejudicar qualquer controle real e efetivo sobre a doença.

se fosse qualquer outro governo teríamos mortes e problemas aos montes? sim, com certeza, países que fizeram algo também sofreram muito. porém não acredito que seria tão monumental quanto foi e ainda sentimos.

não vejo um governo petista ou tucano, para ficar nos partidos básicos, lidando de forma tão precária com toda a situação, deixando o povo amazonense morrer sem oxigênio ou ignorando ofertas de vacina. ainda seria uma tragédia, mas não uma queda livre sem paraquedas.

durante os piores momentos da pandemia parecia que o fim, do governo e da doença, não chegariam, o país que já foi a 6ª maior economia do mundo e uma das promessas de desenvolvimento estava aos frangalhos moral, econômico e social.

chega então 2022, um ano que começou trazendo no ar que o fim desse momento estava próximo, vacinas sendo distribuídas, mortes caindo, lampejos de normalidade (sei que ainda não para todos, infelizmente) e eleições à vista.

apesar de oficialmente a campanha eleitoral começar apenas em agosto, desde janeiro sabemos muito bem as principais peças da disputa, bolsonaro, então presidente e lula, então ex-presidente, um ciro aqui e uma simone tebet alí, eventualmente um cara do novo que acha que governar o país é a mesma coisa que gerir uma empresa e o cabo daciolo da vez, dessa vez: padre kelmon.

por mais que muita gente fique falando de terceira via, disso e daquilo, a realidade não falha e o que importa mesmo é lula e bolsonaro, não tem pra mais ninguém, gostando ou não, o resto está para preencher bancada e tempo de debates insuportavelmente chatos e longos.

o primeiro turno vem e lula quase já leva, faltou pouco menos de 2% para já ser eleito, mas ainda teríamos um período de incertezas e luta política. o grande medo era a pequena margem entre os dois candidatos virar, ou um golpe por parte do bolsonaro se concretizar, não faltaram motivos para que a ansiedade geral subisse.

com pouco menos de 2%, lula leva no segundo, apesar de tudo que foi tentado e de toda a máquina governamental a favor do bolsonaro, lula conseguiu o que ninguém tinha feito até então. primeiro presidente eleito democraticamente para um terceiro mandato, primeira vez desde a redemocratização que o atual presidente não consegue vencer a reeleição e, pra mim o mais importante, segurar um golpe na base do voto.

o alívio era palpável para todos aqueles que não aguentavam mais um segundo de bolsonaro no poder, os demais estavam falando em golpe e que as urnas não eram confiáveis, mas nada que de fato fosse verdade. por alguns dias, talvez até semanas, sentimos uma onda de esperança e o ambiente era mais leve, mais calmo. a vida não tinha ficado fácil do dia para a noite, mas já não era aquele peso constante e esmagador do acordar ao adormecer.

a primeira vitória tinha acontecido, mas como ficou bem óbvio já de partida, muitas outras lutas seriam travadas, será que tentariam algo contra lula antes da posse? será que algum atentado na posse era planejado? bolsonaro iria tentar um golpe? como seria a transição? e o centrão, hein?

de concreto, quase nada aconteceu, apenas a tensão no ar, a posse foi tranquila e histórica, bolsonaro se recusando a ir e entregar a faixa só fortaleceu ainda mais a subida da rampa de lula com um grupo diverso de pessoas, sinalizando a que veio.

apesar de termos passado por uma invasão ao congresso poucos dias depois do começo do governo, em 8 de janeiro, maiores incidentes não aconteceram, o que vemos desde então é um governo infinitamente melhor do que o anterior, que ao menos tem tentado governar e não só passear de moto pelo país.

muitos erros já foram cometidos, muitas falas desastrosas, acordos com o centrão, promessas deixadas de lado e compromissos com a população ainda nem em vista de serem realizados. mas vemos um país mais forte, reconquistando sua relevância internacional.

investigações sobre os atentados em andamento, caso marielle agora andando, bolsonaro inelegível, economia melhorando e a vida do povo ficando um pouco menos dolorosa e sofrida. a sombra de derrota e entreguismo que parecia pairar no brasil já não é vista tão forte, não será fácil e não será feito tudo que gostaríamos em apenas um mandato, a vigilância e a defesa contra a extrema-direita tem que ser um exercício constante.

bolsonaro perdeu muito do apoio e da força que tinha, mas ainda é um ator político a ser lembrado, e pior do que ele, o bolsonarismo é um movimento sólido e que tem vida própria, leva o nome do ex-presidente mas não é dele a muito tempo. outros já estão urubuzando por aí, tentando fazer seus nomes para 2026.

se queremos manter o clima atual, a esquerda precisa se manter atuante e crescer onde ainda não tem muito espaço, mostrar a que serve e desmitificar uma miríade de fake news e lorotas espalhadas na velocidade da luz pela internet.

lula tem uma oportunidade única de reverter todo o caos que sofremos nos últimos 4 anos e ajudar a consolidar a posição da esquerda na política nacional, resta ver se isso será feito ou se vamos tombar nos mesmos erros do passado, nas mesmas bobeiras, egocentrismos e politicagem que nos trouxeram até aqui.