todo mundo quer vender sua excelência, todos querem um biscoito. vivemos num mundo que privilegia muito a auto-exposição constante.
todo mundo quer vender sua excelência, todos querem um biscoito. vivemos num mundo que privilegia muito a auto-exposição constante.
e eu entendo que temos que fazer marketing de nosso trabalho sim, mas com a evolução das redes sociais isso beira a insanidade. todos querem mostrar que estão fazendo cursos, mbas, workshops, palestras, etc.
seja criando ou participando, todos estão sempre gratos, felizes, desafiados e qualquer outro adjetivo desses. mesmo quando é algo ruim, como demissões e “lay-offs”, mudam o tom para mostrar superação e garra. força de vontade.
sei que não é algo que acontece 24h por dia, 7 dias por semana na vida de um único indivíduo, mas com tantas relações que temos através das redes, parece que a todo momento alguém está fazendo algo incrível e importante. e você não. e isso te deixa péssimo e com sentimento de derrota.
causa uma pressão social ridícula, força ainda mais que a gente tente se mostrar e garantir nossa fatia do bolo da atenção e admiração.
com isso, cada pequeno aspecto da vida é publicado e compartilhado.
e não me entenda errado, acredito que as pessoas precisam mesmo ficar orgulhosas daquilo que conquistam e demonstrar, mas não precisa comemorar uma tedx de 10 minutos de duração sobre desenvolvimento ágil como se fosse um grande evento de iluminação interior que mudou completamente sua forma de pensar.
cada minuto, cada pequena etapa vencida, por mais ínfima que de fato seja, é jogada numa plataforma social qualquer, quando não em todas, para demonstrar que você também está aí fazendo algo maravilhoso e incrível.
sinto que tudo isso apenas cria um espaço psicologicamente opressor e tóxico, que valoriza apenas quem, constantemente, deixa sua vida à mostra. não sua vida real, claro, mas a digital e editada, que é linda e perfeita onde mesmo as dificuldades e mazelas do dia são coisas boas.
a ânsia de garantir seu lugar de destaque só faz com que tenhamos que ir a cada vez mais palestras e reuniões e meetings, buscando sempre a inspiração, favorecendo o surgimento de ambientes propícios para charlatões e pessoas que sem estudo algum vendem discursos vazios e simplórios a promessa de ajudar na sua jornada de descobrimento pessoal, a alcançar seus sonhos e metas.
vejo muitos amigos e conhecidos indo em eventos de pessoas que vão te ensinar esses segredos para que você também chegue lá, onde quer que seja o lá.
é cada um que não dá pra entender bem como isso se sustenta, tem de tudo, evento de empreendedorismo por pessoas que só falharam ou estão cheios de problemas financeiros. tem workshops de inovação por gente que nunca construiu nem uma casa de lego na vida, palestras motivacionais por quem apenas faz palestras motivacionais.
e na loucura de sempre estarmos dentro do “zeitgeist”, vamos aceitando sem questionar o básico do básico, de tentar ir além do discurso bonito padrão e ver as bases teóricas do que é dito, se é que tem algo dito.
deixamos nos levar por promessas irreais pelo sonho de ter nosso baú de tesouros no fim do arco-íris, baú que se não chegou ainda, a culpa é apenas nossa de não ter tentado o suficiente ou não ter comprado o acesso de um close friends no instagram por 9,99 que, esse sim, irá trazer toda a prosperidade almejada.
não é necessário que todo mundo seja um estudioso de tudo nessa vida, nem é possível, mas temos que ter o mínimo de discernimento para não cair em ladainha de gente irresponsável que ganha dinheiro enganando e falando obviedades de um jeito pomposo e sedutor.
eu sei e concordo que isso tudo pode ser apenas a chatice de alguém ranzinza e pouco gratiluz, que deveria ir em alguma palestra para entender o segredo das pessoas de sucesso e começar a acordar às cinco da manhã, fazer um milhão de coisas enquanto toma seu café com manteiga e publica 30 stories antes das 9, mas duvido muito que seja o caso.
não quero terminar num tom pessimista e cínico demais, compartilhe, se mostre e se faça ser visto para poder subir no palco do reconhecimento que tanto lutou e batalhou para conseguir, você merece sim. esse não é meu ponto de crítica.
apenas vamos ser um pouco mais criteriosos e conscientes em nossas fontes de conteúdo e informação e com a forma que compartilhamos tudo isso, para não sermos apenas engrenagens de um sistema de falsas promessas e ideias vazias.